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domingo, 27 de junho de 2010

Texto: GUEVARISMO E OS CAMINHOS DA REVOLUÇÃO

Texto - GUEVARISMO E OS CAMINHOS DA REVOLUÇÃO

Luiz Bernardo Pericás

Neste artigo, Pericás pretende analisar o ideário político e as estratégias revolucionárias de Guevara. Para tanto, expõe as características do pensamento guevarista quanto a: guerrilha, internacionalismo, luta no Terceiro Mundo, o homem novo, a moral revolucionária, o partido revolucionário, o individualismo e sua idéia de marxismo dinâmico. Logo de início, o autor nos lembra que Guevara era uma figura contraditória, e que seus textos apresentam temas bastante abrangentes.

A opção de Guevara pelo foco guerrilheiro, é vista pelos críticos como anti-leninista e voluntarista. Entretanto, se a entendermos como um elemento de aceleração do processo revolucionário dormente, estas criticas se tornarão infundadas. A guerrilha é um partido de vanguarda (substitui os PCs – pois são tímidos) que atua para pressionar a derrocada do regime atacado e, junto com os camponeses e revolucionários, fazer a revolução. Essencialmente rural – mantendo contato, trocando informações, protegendo os camponeses, incorporando-os às suas fileiras e fazendo a reforma agrária no campo. Para Che, as massas populares são protagonistas das grandes mudanças, entretanto, considera que o camponês, por falta de cultura, necessita de direção revolucionária e política da classe operária e dos intelectuais revolucionários. Para ele, a guerra revolucionária é longa, somente após anos de lutas e de preparação das condições para a destruição do antigo regime, com a conscientização da população contra o governo e a favor da guerrilha, é que a revolução triunfaria. O autor nos lembra ainda que Che não desmerece o papel do partido na revolução, entendendo-o como fator de extrema importância na construção de um partido marxista-leninista bem estruturado. Lembra-nos ainda da crença em uma frente única contra o maior inimigo O imperialismo e seus colaboradores internos; assim, não descartava alianças com partidos de diferentes tendências ideológicas, pois estas seriam superadas no combate, e os objetivos comuns sobrepujariam os problemas e divergências e criariam coesão e maior união entre os combatentes. Feita, inevitavelmente, através de armas, a revolução deveria ser levado a cabo contra os latifundiários e a burguesia; deveria também expandir-se para outros países, para não terminar isolada e destruída pelos inimigos externos e pela falta de recursos.

Quanto ao internacionalismo, ressaltam-se dois pontos relevantes: um no plano de política externa de países socialistas e o outro se refere à conduta dos revolucionários/guerrilha. As nações socialistas devem dar e contar com o apoio político, econômico e militar entre si. O revolucionário deve estar pronto para lutar pelos mesmos ideais marxistas e humanistas em qualquer parte do mundo. Tais idéias transformaram Guevara no símbolo do combate desprendido de interesses especificamente nacionais e deram origem comparações com Trotski – ambos eram internacionalistas, anti-burocratistas e libertários. Também foram considerados a “consciência da revolução”, pois agiam de forma critica e decisiva, não aceitando todos os direcionamentos implementados nas revoluções, sendo por isso mal vistos por vários setores internos. Diferentemente de Trotski, Che não confiava plenamente nos sindicatos e desconfiava de sua eficácia na luta revolucionária, colocando mais ênfase no papel da guerrilha e do campesinato do que propriamente nas lutas proletárias nas cidades, porém sem descartá-las. Che não aceitava ser chamado de trotskista; nunca afirmou se concordava com a teoria da revolução permanente; dizia que havia vários Lênin e que os trotskista não contribuíram em nada para o movimento revolucionário. Para Pericás, nada indica que houvesse mais de um Guevara, também não o considera um trotskista nem um maoísta – embora concordasse com vários pontos defendidos pelos chineses. Guevara tinha como objetivo a luta em grande escala no Terceiro Mundo, com a guerra no Vietnã, a América Latina deveria ser a próxima frente contra o imperialismo. Seus projetos continentais e sua prática revelaram um ideal bolivarista.

Preocupado em forjar o espírito do homem comunista, Che defendeu e incentivou valores e estímulos capazes de criar o cidadão do futuro. Colocando como fator primordial o uso de incentivos morais no trabalho, o que representava um esforço em desenvolver a consciência socialista acima dos ganhos na produção. Para se chegar ao comunismo é necessário criar bases materiais ao mesmo tempo em que se cria o homem novo. O homem comunista deverá ter o espírito de sacrifício; deverá estudar e se aprimorar para se tornar completo; deverá ser um internacionalista, e estar pronto a lutar em qualquer lugar do mundo; deverá tentar ser sempre o primeiro em tudo; e deverá sentir-se parte de algo que vai além de sua individualidade, ou seja, parte integrante e atuante da sociedade, em toda sua plenitude.

Outro aspecto discutido foi a moral revolucionária. A disciplina era fundamental. Entretanto, não podia confundir-se com a rigidez estalinista, ou mesmo chinesa, tampouco com a extrema flexibilidade de alguns países da Europa Oriental, seria necessário encontrar o ‘ponto exato’. A partir da moral revolucionária, e todas suas implicações seria criado o partido unido da revolução, anti-sectário, anti-burocrático e estritamente ligado às massas, onde se aplicaria a disciplina de acordo com o centralismo burocrático, aberto à criticas e auto-críticas, e onde seus quadros fossem exemplo de consciência revolucionária. Quanto as tarefas impostos ao partido revolucionário, estão em concordância com as concepções de Lenin: (1) convencer maioria do povo do acertado do seu programa e sua tática, (2) conquistar o poder político e aplastar a resistência dos exploradores, (3) organizar o trabalho de governar a Rússia. Para Che, o socialismo não é uma sociedade beneficente, nem um regime utópico, mas um processo histórico-econômico concreto.

No tocante ao individualismo, não se trata de anular o indivíduo, mas a ação individual. Uma dupla existência: ser humano singular e membro da comunidade, como construtor consciente da história, junto com outros que lutam pela mesma causa. Para Guevara, o individualismo deveria ser o completo aproveitamento de todo individuo em beneficio absoluto da coletividade. Dentro do socialismo, o homem – através da educação e da compreensão de seu papel na comunidade, além da consciência revolucionária – teria a possibilidade de afastar-se da alienação, e com isso, ter maior liberdade e exercer sua individualidade de forma completa na sociedade.

O autor afirma que o marxismo ágil, dinâmico e heterodoxo de Guevara era traduzido na América Latina de sua época pela prática revolucionária de fato. A teoria de Marx apresenta postulados gerais que se aplicam de maneiras diferentes em cada lugar. Guevara representou uma elaboração nova do marxismo no continente. Como Lenin, dedicava-se a revolução, dava o exemplo, desenvolvia meios de difundir a propaganda revolucionária e tentava explicar às camadas populares de forma concisa seus objetivos. Como Trotski, tinha grande capacidade organizativa, e trabalhou para consolidar milícias populares e as linhas doutrinárias do exército. Como Mao, desenvolveu através da experiência, teorias na esfera da guerra popular e da guerrilha. Como Mariátegui, analisou a situação econômico-social do continente, e elaborou escritos originais sobre questões econômicas, sociais e políticas a partir da realidade que conhecia e dos clássicos marxistas.

Quais foram as implicações e conseqüências as linha guevarista na América Latina?
Para José Aricó, Guevara tornou-se um símbolo de Luta, foi incorporado ao imaginário do continente, e sua figura tornou-se quase santificada. Segundo Péricas, no lado prático, o guevarismo caracterizou alguns elementos inovadores: a incorporação do marxismo-leninismo às tradições de lutas sociais, rebeliões camponesas e militarismo da região, e a necessidade em se criar, no continente, uma filosofia política pragmática e ao mesmo tempo imbuída de aspectos elevados de ética e moral. Péricas coloca uma última questão: a consciência revolucionária precede ou sucede a luta revolucionária? Para Fidel e Paul Sweezy, a revolução propicia a consciência revolucionária. Guevara mencionara que a guerra revolucionária só deve ser iniciada em condições específicas, e como último recurso.

(Lucimar Simon)

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