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domingo, 23 de maio de 2010

Texto: OS PIONEIROS DO MARXISMO NA AMÉRICA LATINA

Texto – CASANOVA, Pablo González. OS PIONEIROS DO MARXISMO NA AMÉRICA LATINA.

A difusão do marxismo pela Europa deu-se de forma lenta, pois muitos textos teóricos importantes não foram traduzidos, salvo alguns em francês e em espanhol. Mesmo no caso espanhol, houve distorções quanto às idéias marxistas, que foram recebidas por anarquistas espanhóis. As idéias de luta política, participação da classe operária encontraram substrato na ala reformista da esquerda espanhola, porém era menos expressiva.

Na América Latina a difusão do pensamento marxista se assemelhou ao da Espanha. Entre o final do século XIX e início do século XX, o marxismo não era bem conhecido nos países mais desenvolvidos da América Latina: Brasil, Argentina e México. Encontravam-se nos escritos da época “um marxismo corrigido e adaptado, simples e mecanicista [...]” (p. 18). Além da escassez e da má compreensão dos textos, acrescenta-se a dificuldade de domínio do conceito novo de dialética. O conceito chocava-se com um pensamento autoritário e metafísico de difícil entendimento, e esbarrava-se com as idéias colonialistas e imperialistas, comuns da realidade sócio-política latino-americanas.

Apesar desse quadro de obstáculos reais e conceituais, a compreensão do pensamento marxista e revolucionário ocorreu, de forma desigual, na América Latina, tendo no México seu caso extremado. A Revolução Mexicana (1910-17), não sofreu influências marxistas, mesmo após a consolidação do novo regime, que teve passagens do anarquismo ao trabalhismo e ao nacionalismo. Somente na segunda metade do séc. XX começou-se a se considerar o pensamento e categorias marxistas. No restante da Am. Latina, três casos significativos de expressão do pensamento marxista podem ser destacados: o brasileiro, onde se fundiu marxismo com positivismo; o argentino, com um marxismo expressado nos moldes reformistas; e o cubano, que com o posicionamento revolucionário de Jose Martí (que não era marxista), acrescentou-se a do primeiro marxista revolucionário, Baliño.

No Brasil, no final do século XIX, o pensamento marxista encontrou voz no movimento anarquista e anarco-sindicalista, entretanto de forma equivocada. Como afirma o autor baseado em Astrogildo Pereira, que analisa os escritos do Dr. Silvério Fontes (considerado o primeiro brasileiro de tendência marxista), houve, ainda, no mesmo período, uma associação da idéia marxista com a visão evolucionista, muito forte nesse momento. Nesse sentido, o médico defenderia o oposto do marxismo, ou seja, o reformismo e o evolucionismo vulgar; a idéia de revolução estava ligada à idéia de progresso. Fontes esteve presente em episódios da organização e propaganda socialista no Brasil, e, ainda que com certas confusões tenha escrito um manifesto do partido socialista, alcançou algum rigor e clareza ao explicar o conceito de luta de classes de Marx. O Manifesto de Fontes chama os operários brasileiros a lutarem contra a “classe opressora”, e destaca as reformas sociais que ocorriam na Europa como uma alternativa para o caso brasileiro. No texto, também, havia uma crítica às “ciências positivas”, que estimulavam a concentração de capital, bem como o surgimento de monopólios econômicos. Dessa forma, nota-se que sua noção marxista o levou a passar do positivismo político ao positivismo socialista.

Em 1901, o autor Euclides da Cunha, de Os Sertões, inaugurou o “Clube Internacional Filhos do Trabalho”, que tinha como proposta divulgar o marxismo, denominado por ele de “racionalismo”. Em outros de seus escritos, Euclides buscou certa afinidade com os ideais marxistas, criticando nomes do chamado “socialismo utópico” e elogiando o “socialismo científico” de Marx. Para Euclides, um dos pontos positivos do marxismo foi que este apresentava uma teoria que expunha o problema da exploração capitalista, e apresentava uma solução científica para esse problema: a consciência e a organização política dos trabalhadores; embora o autor não fosse marxista, pois suas raízes ideológicas também eram positivistas. A denúncia de seus textos (literários, não sistemáticos) estava focada no colonialismo, mesmo sendo ele um colonialista; mas era, sobretudo, um nacionalista. Como muitos brasileiros de sua época, misturou “socialismo” com um nacionalismo que via nas atitudes tradicionais colonialistas e escravagistas um atraso para o “progresso” do país, visto por ele como o fim da exploração, por mais que isso possa parecer ambíguo em suas idéias em relação a suas ações.

Na Argentina, o pensamento marxista foi impulsionado por Germán Avé Lallemand, um alemão emigrado em Buenos Aires, que fundou, junto com demais alemães, o “Clube Vorwäts”, e também diretor e fundador do El Obrero, considerado o primeiro periódico marxista da América Latina. O alemão trabalhou no país no sentido de propagar os ideais marxistas, aliado a uma classe operária de base anarquista, muitas vezes contrária às idéias socialistas. Para Lallemand, o marxismo na Argentina tinha um longo percurso a percorrer até chegar num nível de consciência de classe desejável, pois na prática os trabalhadores argentinos até possuíam certa agitação socialista, entretanto, na teoria, isso não era consistente, uma vez que essa massa, em sua maioria, carecia de uma formação mais teórica.

As análises de Lallemand sobre a sociedade argentina não considerava, o que era recorrente nas análises marxistas latino-americanas da época, os problemas históricos locais (caudilhismo) e o imperialismo nascente. Para o intelectual alemão, a expansão do capitalismo europeu e norte-americano nos países atrasados era positiva, pois, dessa forma, acelerava o desenvolvimento das forças produtivas e das relações de produção, desencadeando o processo da revolução social. Suas críticas ao capitalismo ficaram circunscritas à negação formal do capitalismo como sistema social. Nesse sentido, Lallemand “pensou o desenvolvimento da luta de classes a partir de um processo que ainda não mostrava nem todas as possibilidades do desenvolvimento imperialista, nem todas as possibilidades do desenvolvimento revolucionário (p. 26)”.

Lallemand e os redatores do jornal escreviam em seus artigos defesas de uma sociedade burguesa, enquanto avanço civilizacional que conduziria para a sociedade comunista. Todavia, esse discurso esvaziou o combate político contra o latifúndio e às práticas imperialistas. Seu apoio privilegiava o desenvolvimento do capitalismo no campo, que, segundo ele, seria fonte para o crescimento do proletariado rural. Assim, não perceberam as articulações de poder que surgiam e que se desenvolveriam com o imperialismo, a ponto de acreditarem que os EUA poderiam intervir no país contra as oligarquias latifundiárias.

Na última década do século XIX, o socialismo reformista ganhou força na Argentina, o que levou ao grupo liderado por Lallemand a severas críticas ao Partido Socialista (1894), encabeçado por Juan B. Justo, seu fundador. Essa linha ideológica dentro do partido dominou muitos argentinos anarquistas, que passaram a defender idéias evolucionistas e positivistas. Os redatores de El Obrero se posicionaram frente aos anarquistas, propondo a luta política necessária na imediaticidade; e aos reformistas, propondo a luta final pelo poder e a instauração do socialismo.

O reformismo argentino aliou-se com projetos de uma oligarquia crioula burguesa dependente, e isso fortaleceu uma tradição de lutas que se remontava à época do governo de Sarmiento (ex-presidente argentino anti-caudilhista que implementou várias reformas liberais), que no cerne ideológico de suas políticas estavam presentes às dicotomias civilização versus barbárie, cidade versus campo. Assim, segundo Casanova “o raciocínio revolucionário encontrou dificuldades enormes para precisar as categorias do processo de libertação latino-americano e argentino” (p. 29).

Diferentemente do que ocorreu na Argentina, em Cuba uma postura antiimperialista foi assumida por uma das figuras políticas mais importantes do país, Jose Martí, que participou ativamente do processo de independência cubana. Martí, inserido nessa tradição revolucionária de luta contra o imperialismo, vivenciada durante a independência, foi evocado durante a Revolução Cubana (meados do século XX) por seus líderes. Ele faz parte de uma cultura revolucionária do país, e, dessa forma, é o precursor moral, político, revolucionário e prático da Revolução Cubana.

Contudo, afirmar que Martí era um revolucionário não implica em afirmar que fosse socialista, mesmo com as associações que foram feitas em torno disso. Ele foi um nacionalista revolucionário que lutou contra o colonialismo e nos primeiros embates do imperialismo, e, por essa razão, foi o precursor do pensamento socialista latino-americano, na medida em que colocou um problema que o pensamento marxista de sua época até então não havia considerado o da libertação dos povos coloniais do imperialismo.

O legado de Martí consistiu em criar uma base sólida de enfrentamento de problemas como o do reformismo, o da espontaneidade anarquista e o da luta de classes que não prioriza o antiimperialismo. Seu inconformismo tendia a mobilizar as classes médias em direção ao povo e aos trabalhadores, e aproximá-los à luta pelo poder. Junto com Martí, Carlos Baliño, que era marxista, diferente de Martí, fundou o Partido Revolucionário Cubano (1892), que combateu o colonialismo contra a Espanha, além de combater o reformismo e o apoliticismo. Mesmo não sendo um marxista, Martí pode ser considerado um revolucionário, mas que se coloca a favor da libertação de um povo contra o imperialismo, mais do que uma classe em face da burguesia. Apesar disso, ele levantou os mesmo problemas que Marx suscita, salvo suas diferenças históricas e ideológicas.

Baliño, que já era socialista e revolucionário antes da fundação do partido, defendia o socialismo científico associado a uma lógica e a uma luta revolucionária mais reveladoras. Seus escritos se destacam pela exatidão com que expressou observações teóricas concisas, aplicadas a vincular os ideais do socialismo com o movimento das lutas revolucionárias e seus problemas atuais. A complexidade do discurso encontrado em Baliño fica evidenciada quando este supõe um vínculo do sistema dialético do “socialismo científico” com a ação revolucionária, propriamente dita. Assim, “o ‘amplo raciocínio’ parte da ‘escravidão visível a patente’, para fazer sua ‘última análise’, sem derivar desta as linhas da ação imediata” (p. 38), que se deduzem da própria luta, seja ela por via violenta ou pacífica. Para Baliño, a necessidade encontrada na imediaticidade da ação revolucionária conduzirá a determinada opção, se se tem como objetivo final a transformação social. Nesse sentido, dá importância ao fato de se pensar e de se educar a classe trabalhadora, no que tange às lutas políticas, democráticas e sindicais, essencialmente contrárias ao inconformismo; não há espaço aqui para a defesa do reformismo.

(Lucimar Simon)

Um comentário:

Nina Andrade disse...

Muito bom, obrigada.